Opinião: A SITUAÇÃO POLÍTICA FRANCESA É AINDA MAIS COMPLEXA DO QUE PARECE

Carlos Pereira, Jornalista, Diretor do LusoJornal (Paris)

A França está a viver atualmente um verdadeiro terramoto político, causado pelo Presidente Emmanuel Macron quando decidiu, na noite eleitoral das Europeias, no passado dia 9 de junho, dissolver A Assembleia Nacional e convocar novas eleições legislativas.

Para perceber a situação política francesa é necessário recuar a 2017, quando Emmanuel Macron, então ministro do Governo socialista do Presidente François Hollande, decidiu criar o seu próprio partido e candidatar-se à Presidência da República.

A base da sua candidatura foi o de dizer que já não se justificava, no século XXI, haver partidos de Direita e partidos de Esquerda, decidindo que o partido “La République en Marche”, alegadamente ao Centro, ia beber ideias ora de Esquerda, ora de Direita.

Ao criar este novo partido, retirando personalidades políticas dos 2 principais partidos franceses, Emmanuel Macron lançou uma verdadeira bomba atómica no Partido Socialista, mas também nos Republicanos, praticamente reduzindo estes dois partidos a meros escombros.

Por exemplo, na última eleição presidencial, a candidata do Partido Socialista não foi além de uns parcos 3% dos votos.

As democracias ocidentais assentam essencialmente nestes dois pilares, ideologicamente bem definidos, um à Esquerda e outro à Direita. Também em Portugal, o Partido Socialista é um pilar fundamental da democracia portuguesa, assim como é o Partido Social Democrata. Em França, o Partido Socialista à Esquerda e os Republicanos à Direita, eram esses dois pilares garantes da democracia francesa.

O reforço dos extremos

Emmanuel Macron pensava criar uma união do Centro, mas, na realidade, acabou por criar sobretudo uma polarização nos dois extremos.

Concentrando-se ao Centro, acabou por reforçar a Extrema direita do antigo Front National (FN), criado por Jean-Marie Le Pen e agora transformado em Rassemblement National (RN), dirigido pela filha Marie Le Pen e pelo companheiro da neta, Jordan Bardella. Este partido tem vindo a concentrar os votos da Extrema-direita, mas também da Direita mais conservadora e saiu reforçado ao ponto de vencer as eleições europeias do mês passado.

No outro oposto, beneficiando de uma descida radical do Partido Comunista francês, inscrita na queda dos Partidos Comunistas europeus, foi criado um partido radical chamado La France Insoumise (LFI) cujo dirigente é o polémico líder, que já foi socialista, chamado Jean-Luc Mélenchon.

Apesar das dificuldades, durante o primeiro mandato, Emmanuel Macron conseguiu mostrando que o Centro era mais forte do que os dois extremos e foi reeleito mesmo se acabou por não garantir uma maioria absoluta no segundo mandato.

As razões da dissolução

A pergunta que se coloca agora é: por que razão Emmanuel Macron dissolveu a Assembleia Nacional, na noite eleitoral do dia 9 de junho? Sobretudo sem consultar nem os Deputados do seu partido, nem os ministros que lhe fizeram confiança.

Por um lado, porque queria beneficiar, mais uma vez, de um choque político: o facto da Extrema direita ter ganhado a eleição. Emmanuel Macron esperava que fosse criado uma Frente Republicana contra a Extrema direita. Por outro lado, o candidato socialista Raphaël Glucksmann obteve um excelente resultado de 14%, sobretudo se o compararmos com os 3% de Anne Hidalgo nas eleições presidenciais anteriores.

Pensava então Emmanuel Macron que, se provocasse eleições, esta nova dinâmica do Partido Socialista se iria concentrar num Centro Democrático em França.

Isso não aconteceu por duas razões: em primeiro lugar porque logo no dia seguinte, o Partido Socialista aliou-se à Esquerda radical, criando um amplo movimento da Esquerda unida. Emmanuel Macron não estava a contar com isso, até porque Raphaël Glucksmann é um moderado e sempre se desmarcou da tal Esquerda radical da LFI. Mas o líder do Partido Socialista, Olivier Faure, considerou que tinham de ser reunidas todas as forças de Esquerda e acabou por entrar nesta dinâmica de Nova Frente Popular (Nouveau Front Populaire).

Emmanuel Macron não contava também que o líder dos Republicanos, Eric Ciotti, também-ele sem contactar nenhum dos seus colegas, assinasse um acordo eleitoral entre os Republicanos e a Extrema direita, numa “barreira republicana” contra Jean-Luc Mélenchon.

Mélenchon é um homem chave nesta eleição, porque é o líder incontestável da La France Insoumise, o partido que criou (que em Portugal situa-se próximo do Bloco de Esquerda), mas que também é bastante polémico nas suas tomadas de posição, nomeadamente apelando ao desarmando da Polícia, considerando que a Polícia é “inimiga do povo” e considerando que deviam ser abertas as portas da imigração.

Estes dois pontos não agradam a uma grande parte da população francesa que se diz insegura e por isso quer uma Polícia mais forte e uma Justiça mais célere. Por outro lado, porque considera que já há muitos imigrantes em França e que a imigração está incontrolada. Por isso, Mélenchon é muito criticado e muito temido por uma boa parte da população francesa. Alguns membros do Partido tentaram afastar Mélenchon, mas, finalmente, foram eles que foram afastados.

Esta é pois a situação atual: Os dois extremos reforçaram ainda mais e Emmanuel Mácron ficou completamente sozinho.

A primeira volta das eleições legislativas, deram vitória ao Rassemblement National e agora Emmanuel Macron foi obrigado a associar-se – de certa forma – ao grupo da união da Esquerda, reforçando a barreira republicana para tentar impedir que a Extrema direita chegue ao poder.

Outro dado importante nesta eleição foi o facto de haver uma participação muito grande dos eleitores. Há mais de 40 anos que não existia uma tão grande afluência às urnas como nesta eleição. Este é um ponto extremamente positivo em qualquer democracia.

Até quando vamos ter Frente Republicana

As eleições legislativas francesas têm um detalhe particular: os círculos eleitorais são uninominais, apenas elegem um candidato e por vezes nem todos fazem aquilo que os líderes nacionais dos Partidos lhes dizem. Esta segunda volta vai ser essencialmente uma volta para testar se a ‘Frente Republicana’ ainda vai conseguir impedir a eleição de muitos Deputados do Rassemblement Nacional.

Há 20 anos que esta Frente Republicana tem vindo a impedir a eleição de mais deputados do RN. Vamos saber por quanto tempo…

Para já, as estatísticas não preveem que a Extrema-direita obtenha a maioria absoluta que pediu aos eleitores. Por isso, se ganhar a eleição, não vai conseguir governar, nem fazer aquilo que se propõe fazer. E ainda, se a Extrema-direita ganhar, é provável que haja uma união republicana dos Deputados para fazer uma espécie de ‘geringonça gigante’. Caso resulte num governo, será de tal forma complexo, implicando tantos partidos que não se entendem, que vão da Direita com os Republicanos até à Extrema esquerda, e não vai ser fácil encontrar políticas comuns que possam manter este Governo durante tanto tempo.

Estamos pois perante uma situação complexa e mais complexa ainda serão os tempos futuros, porque não vai ser nada fácil criar um Governo multifacetado e depois fazer coabitar esse Governo com o Presidente da República.

Em França, o Presidente da República preside ao Conselho de Ministros todas as semanas e tem alguns poderes que estão constitucionalmente na sua responsabilidade, como é o caso da política externa e da defesa.

Fazer coabitar vários partidos num Governo já vai ser difícil, mas fazer coabitar esses mesmos partidos no Governo com o Presidente da República – e em particular com este Presidente da República – vai ser um grande desafio.

Mario Rufino
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