POR FAVOR, NÃO MATEM A SAUDADE!

Diz-se por cá que a palavra saudade é exclusivamente portuguesa, que não tem tradução noutra língua qualquer. Mas isso que interessa? Saudade é muito mais do que uma palavra, é muito mais do que a simples junção de sete letras, saudade é um sentimento – chamem-lhe o que quiserem… mas todos a sentirão, uns com mais intensidade, outros nem tanto, não haverá peito em que ela não caiba, não haverá olhos que ela não molhe, não haverá corações onde ela não se acoite, não haverá bocas que dela não falem…

Nesta época de Natal que já se sente e já se vive, a saudade toca-nos de maneira muito especial – ela leva-nos aos velhos tempos da nossa meninice, fazendo-nos recordar a ansiedade por que passávamos antes da abertura das prendas, relembrando-nos as longas esperas por um Pai Natal que nunca nos apareceu, ou ainda transportando-nos à dura realidade de sabermos que muitos dos nossos entes queridos nunca mais se sentarão connosco à mesa na ceia da consoada ou no almoço de Natal…

Saudade, palavra ou sentimento, faz-nos rir e chorar, nela cabem os bons e os maus momentos por que passámos, as alegrias que vivemos e as tristezas que chorámos! Saudade, coisa que não se explica mas se sente, que ora nos flagela, ora nos inebria, mas que jamais nos abandona, que nos faz companhia e nos aperta nos seus braços fortes e intemporais, saudade que nos transporta ao filme da nossa vida que não nos cansamos de ver, vezes sem conta…

Porque teimamos, então, em matá-la? Quantos de nós já dissemos que este ano é que vamos à terra… para matar saudades? Quantos de nós já encomendámos algo que não comíamos ou bebíamos há muito tempo… só para matar saudades? Quantos de nós procurámos, no baú das recordações, amarelecidas fotografias de familiares, de antigas namoradas ou namorados, de amigos e de locais onde estivemos… só para matar saudades? Quantos de nós já procurámos uma música que na nossa juventude nos era tão querida… só para matar saudades? Porque constantemente agradecemos a publicação nas redes sociais desta ou daquela foto, deste ou daquele evento que nos traz gratas recordações… e que nos mata as saudades?

Por favor, não matem a saudade! Depois dela pouco mais nos restará, ela alimenta-nos a vida e enche-nos o coração, ela possui o raro condão de, com o passar dos anos, sermos agora capazes de suavizar o que nos terá corrido menos bem, ela consegue, até, que saibamos esquecer e perdoar – eu gosto de ter saudades, jamais seria capaz de matá-la, ter saudades faz-me falta, faz-me viver, ou reviver, as várias vidas que vivi…

DANIEL SANTOS

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