Covid-19: Brasil reabre sob ameaça de disseminação da estirpe delta

Com o número de mortes por covid-19 em queda no Brasil, um renovado sentimento de otimismo levou governadores a reverterem restrições de circulação em meio a ameaça iminente da estirpe delta, que já tem transmissão comunitária no país.

Especialistas já se perguntam o que acontecerá quando a variante delta da covid-19 se espalhar pelo Brasil, que tem o segundo maior número de mortes do mundo e onde a maioria da população não está totalmente imunizada.

O número de casos e mortes provocadas pela estirpe delta voltou a crescer em todo o mundo após um período de declínio e a Organização Mundial da Saúde (OMS) prevê que ela se tornará dominante em alguns meses.

Os países que conseguiram cumprir um amplo programa de vacinação, como o Reino Unido, viram as infecções dispararem nas últimas semanas, mas sem um aumento correspondente de casos de paciente em estado grave ou mortes.

Especialistas temem que seja o Brasil não consiga repetir o cenário britânico devido à lentidão da campanha de vacinação.

“Será explosivo (…) Haverá uma nova onda. Estamos abrindo muito”, avaliou Gonzalo Vecina, professor de saúde pública da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista à Associated Press.

O Ministério da Saúde do Brasil contabilizou 140 casos da variante delta até sexta-feira, incluindo notificações nos três estados mais populosos (São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro), e 12 mortes.

O Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, há muito se opõe às restrições e minimiza os riscos da covid-19, sempre dizendo que a infeção é inevitável.

O ministro da Saúde do país, Marcelo Queiroga, diz que vacinar mais a população é a melhor forma de conter a variante, mas insiste que o Brasil deve retomar suas atividades económicas.

“Temos capacidade para leitos hospitalares e vamos conviver com esta pandemia até que possamos controlá-la definitivamente”, disse Queiroga na quarta-feira, destacando a importância de saber se cada pessoa infetada com a variante já tomou uma ou duas vacinas.

Pesquisadores britânicos descobriram que duas doses das vacinas Pfizer ou AstraZeneca foram apenas ligeiramente menos eficazes no bloqueio da doença sintomática da estirpe delta. Estas vacinas foram extremamente eficazes na prevenção da hospitalização.

Mas a aplicação de apenas uma dose delas se mostrou muito menos eficaz no caso da delta. Isso levou a Grã-Bretanha, a acelerar a vacinação da segunda dose.

Existem poucas informações sobre a eficácia de outras vacinas contra a variante que surgiu na Índia.

Isso é preocupante para o Brasil, onde 17% da população está totalmente vacinada e 44% já recebeu a primeira de vacinas.

A aplicação da vacina da AstraZeneca representa quase metade de todas as vacinas administradas no país sul-americano, a vacina da Sinovac, mais de um terço, e a Pfizer, a maior parte do restante.

O governador de São Paulo, João Doria, está entre os líderes que consideram uma injeção de reforço para quem recebeu duas doses de Sinovac. Ao mesmo tempo, ele permitiu que as empresas permanecessem abertas até mais tarde e aumentassem sua capacidade de clientes.

O estado de Pernambuco também afrouxou as restrições para bares e eventos sociais em 5 de julho, mesmo dia em que o estado nordestino identificou seus dois primeiros casos de delta.

O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, permitiu que 15.000 espectadores assistissem a uma partida de futebol nesta semana – a primeira partida profissional de clubes com torcedores no Brasil desde o início da pandemia.

Pouco antes do jogo, o secretário de Saúde do Distrito Federal confirmou casos da variante delta.

“A informação que os governadores estão passando às pessoas é que a pandemia está sob controlo”, disse Ethel Maciel, epidemiologista da Universidade Federal do Espírito Santo.

“Não deveríamos estar falando sobre controlo ou a pandemia chegando ao fim quando menos de 20% das pessoas estão totalmente vacinadas e mais de mil pessoas morrem todos os dias”, acrescentou o especialista.

Israel e a Holanda reabriram amplamente depois de vacinar a maioria de seus cidadãos, mas tiveram que reimpor algumas restrições após novos surtos de infeções. O primeiro-ministro holandês disse que suspender as restrições cedo demais “foi um erro”.

A Indonésia está atrás do Brasil no índice de vacinação e, na quinta-feira, o país do sudeste asiático registou seu dia mais letal desde o início da pandemia.

A Sinovac era a vacina predominante lá, mas com a preocupação crescente de que a injeção seja menos eficaz contra a estirpe delta, o Governo está planeando doses de reforço de outras vacinas.

No Brasil, o impacto da Delta pode ser amortecido pela variante gama altamente contagiosa, que surgiu na cidade amazónica de Manaus e já estabeleceu domínio em todo o Brasil, disse Felipe Naveca, virologista do Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que estuda estirpes do vírus SARS-Cov-2 em Manaus.

Denise Garrett, epidemiologista e vice-presidente do Sabin Vaccine Institute, disse acreditar que o sistema de saúde brasileiro vai se dobrar se não se preparar para o surgimento de infecções por novas linhagens da covid-19

“Estamos vendo isso acontecer em países com uma cobertura de vacinação maior (…) Não há nada que nos faça pensar que o Brasil será diferente”, concluiu.

O Brasil é o país lusófono mais afetado pela pandemia e um dos mais atingidos no mundo ao contabilizar 547.016 vítimas mortais e mais de 19,5 milhões de casos confirmados de covid-19.

A pandemia de covid-19 provocou pelo menos 4.139.040 mortos em todo o mundo, entre mais de 192,5 milhões de casos de infeção pelo novo coronavírus, segundo o balanço mais recente da agência France-Presse.

A doença respiratória é provocada pelo coronavírus SARS-CoV-2, detetado no final de 2019 em Wuhan, cidade do centro da China, e atualmente com variantes identificadas em países como o Reino Unido, Índia, África do Sul, Brasil e Peru.

CYR // RBF

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