EXPOSIÇÃO MOSTRA CONVIVÊNCIA DAS CULTURAS CRISTÂ E ISLÂMICA NA FORMAÇÃO DE PORTUGAL

O martírio de cinco frades franciscanos em Marrocos, há 800 anos, é o pretexto para uma exposição, que evoca a convivência das culturas cristã e islâmica, a inaugurar hoje, no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa.

Pintura, escultura, tecidos, objectos do quotidiano e peças do culto religioso constituem mais de 200 testemunhos da época, exibidos na exposição “Guerreiros e Mártires. A Cristandade e o Islão na Formação de Portugal”, que recordam um tempo em que se construía a união do reino português.

Durante uma visita guiada a jornalistas, realizada hoje, o director do MNAA, Joaquim Caetano, sublinhou a importância do martírio destes cinco frades franciscanos, em 1220, para a História de Portugal, não apenas pelas suas relíquias, hoje ainda alvo de culto, no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, mas também pelo confronto entre duas grandes religiões.

“A narrativa dos mártires de Marrocos serviu, na época, o contexto da reconquista, mas manteve-se ao logo dos séculos, continuando a ser ensinada nas escolas a ideia dos maus muçulmanos e dos bons cristãos”, recordou o director do museu.

No entanto, com novas leituras historiográficas de académicos como António Borges Coelho e José Mattoso, a ideia dos “cristãos contra muçulmanos” tornou-se “muito mais complexa”, e “veio a revelar-se um tempo em que as duas culturas conviviam juntas, com momentos de conflito e de paz, e com uma influência mútua, com trocas e alianças”.

A exposição recebe os visitantes, à entrada da primeira sala, com a pintura “Mártires de Marrocos”, um óleo sobre madeira de carvalho pintado por Francisco Henriques (falecido em 1518), proveniente da Igreja de São Francisco, em Évora, e que resume o acontecimento da decapitação dos cinco frades franciscanos.

Ao longo do percurso, são exibidas peças provenientes de Portugal e de Espanha, como lápides em pedra, brasões, cofres, relicários, pinturas, tecidos e livros – uma parte das peças inicialmente previstas, uma vez que algumas outras, vindas de Inglaterra e da Alemanha, não puderam ser deslocadas, pelos constrangimentos da pandemia.

O ano de 1220 marca um período de grande conflitualidade, que vem quebrar a tolerância existente nas comunidades no território ocupado, em que os cristãos tinham algum poder e influência, facto que “o regime do Estado Novo veio mais tarde desvalorizar”, apontou Joaquim Caetano, durante a visita.

“A função de um museu nacional, sobretudo um museu que tem peças importantes no seu acervo, é ser um espaço de constante interrogação. A historiografia a nível académico tem evoluído bastante, mas o público em geral não tem ainda acesso a esse conhecimento. Os temas incómodos são aqueles que temos de questionar, e esse é o nosso papel”, sustentou o director do MNAA.

Questionado pela agência Lusa sobre que temas incómodos são suscitados nesta exposição em particular, Joaquim Caetano disse que “passam sobretudo por perceber, nos dias de hoje, que há uma tendência muito grande para definir o outro como inimigo. No entanto, há outras culturas, muito ricas, que fazem parte do nosso passado, da nossa história e do nosso quotidiano”.

O massacre dos cinco franciscanos em Marrocos foi determinante para o próprio Santo António abraçar a sua vocação franciscana, tornando-se a primeira grande referência cultural e religiosa portuguesa na Europa.

A exposição “Guerreiros e Mártires. A Cristandade e o Islão na Formação de Portugal” nasceu de uma proposta apresentada ao MNAA, em 2018, pelo historiador Santiago Macias, centrada na passagem por Portugal, em 1219, dos cinco franciscanos que viriam a ser mortos em Marrocos, em 16 de janeiro de 1220, a mando do califa Abu Yusuf al-Mustansir, que entraria no imaginário português com o nome simplificado de Miramolim.

Essa passagem dos frades por Portugal, acabou por ser determinante na decisão de Santo António em trocar a Ordem Crúzia pela vocação franciscana, recordaram Joaquim Caetano e Santiago Macias, ambos curadores da mostra, que evoca o impacto do martírio.

Esse evento levou à produção de imagens que acentuaram, no imaginário cristão, o papel opositor do islamismo, “mote para a construção de um vector importante da identidade nacional, reforçado com a expansão portuguesa dos séculos XV e XVI”.

A exposição, que vai ficar patente até 28 de Fevereiro de 2021, tem o apoio mecenático do BPI/Fundação “La Caixa”, com o qual o MNAA tem vindo a estabelecer um programa estratégico de duas grandes exposições anuais.

De acordo com o director do museu, para os próximos dois anos, ainda no quadro deste mecenato, estão previstas mostras a propósito dos 500 anos da morte do rei Manuel I, e ainda outra sobre escultura Barroca.

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