DESFALCADÍSSIMOS…

por DANIEL SANTOS
15 Outubro 2020

É verdade… e quem diria? Ontem, frente a uns rapazes grandes, loiros e entroncados, uns tantos minorcas que equipavam de encarnado e verde deram água pela barba aos matulões nórdicos que vieram a Lisboa discutir a última hipótese de se manterem na primeira divisão dessa prova esquisita que a UEFA inventou e a que, à falta de melhor nomenclatura, entendeu chamar Liga das Nações.

Esta vitória, sem espinhas e sem caroço, nada teria de anormal a não ser pelo facto de a mesma ter sido conseguida por uma selecção portuguesa que se apresentou em campo desfalcada. Desfalcadíssima, digo eu – ontem à noite não jogaram o Peyroteo, nem o Matateu, nem o José Águas, nem o Eusébio, nem o Torres, nem o Pauleta, nem o Nené, nem o Gomes, nem o Figo… e, imaginem lá, nem o Cristiano Ronaldo! Sim, o nosso super-homem, contra todas as previsões, não pôde estar presente, nem na relva, nem no banco, nem na bancada, porque foi apanhado pelo coronavírus, esse bicho feio e arredondado, coberto de ventosas que mais parecem as orelhas do Shrek e da sua namorada Fiona, que teve a ousadia de penetrar naquele corpinho musculado e hercúleo, belo e depilado como um Adónis funchalense que faz as delícias de algumas jovens, certas balzaquianas e muitas sopeiras desgostosas por se terem deitado toda a vida ao lado de um companheiro mais peludo do que o pouco inteligente Ruço que lhes puxa a carroça…

Mas voltemos ao jogo: ontem, Portugal apresentou em campo onze jogadores – e não dez e mais um, como a nossa imprensa tanto gosta de referir; ontem, onze futebolistas (16, com as substituições) formaram uma verdadeira equipa em que todos correram, todos saltaram, todos sarrafaram, todos caíram e todos se levantaram; ontem, foram todos por um e não todos para um; ontem, todos defenderam e todos atacaram, todos deram o litro e o quilolitro, ontem foi bonito ver como as jogadas fluíam, como os jogadores se excediam nas fintas, nas desmarcações, na procura do companheiro melhor colocado a quem ceder a bola, na entreajuda, na fossanguice como procuravam e disputavam cada jogada – ontem, sem a preocupação, ou obrigação, de procurarem o melhor dos melhores, os nossos avançados deram largas à sua imaginação, à sua técnica, à sua arte de bem jogar futebol, libertos que estavam da presença do intitulado melhor do mundo e arredores, jogador que reconheço de grande nível e qualidade mas atleta pouco dado a grandes sacrifícios e mais preocupado com os recordes pessoais que lhe granjeiam muita fama… e muito mais dinheiro!

Espero que Ronaldo recupere rapidamente da infecção que agora o assolou – reconheço que ele ainda fará falta à selecção, mas quero deixar aqui o apreço e o agradecimento a estes jogadores, tantas vezes ignorados pela nossa hipócrita e desonesta comunicação social, que ontem se atiraram aos suecos e brilhantemente os derrotaram – hoje, meus amigos, as grandes manchetes e os jornais televisivos só tratarão da doença do Ronaldo, da sua viagem num “avião-ambulância”, das preocupações da sua patética família, do desejo de melhoras que Marcelo já lhe enviou, das lágrimas que o Cristianinho verterá, das poses e do beicinho que a Georgina fará… do Diogo Jota, do Bernardo Silva, do Rui Patrício, do Pepe, do Williams, do João Cancelo, do Rúben Dias, do Raphael Guerreiro, do Danilo, do Bruno Fernandes, do João Félix, do Podence, do André Silva, do Rafa e do Renato Sanches pouco ou nada se ouvirá, jogadores medíocres como estes não cabem na história do nosso futebol, servem apenas para o papel de bobos na corte de Sua Alteza, o Rei… que agora vai nu, ou melhor, infectado.

 

Programa Nacional de Apoio ao Investimento da Diáspora (PNAID)

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