A GUERRA DOS FUTEBÓIS

por DANIEL SANTOS
8 Setembro 2020

A guerra dos futebóis continua, cada vez mais sangrenta nos clubes e, principalmente, nos jornais e nas televisões – todos os dias se descobrem ou se inventam saídas e chegadas de jogadores, está montado um verdadeiro entreposto de carne na nossa comunicação social.

Os três diários desportivos nacionais, para além da bizarrice que é o próprio facto de existirem num país tão pequeno como o nosso e onde ainda grassa a iliteracia, matam-se e esfolam-se para agarrar o leitor futeboleiro, ávido das notícias dos craques – e de alguns coxos – que aí vêm, muitos deles em fim de carreira, mas, mesmo assim, louvados e endeusados pelos jornalistas e comentadores que nos martelam diariamente com a água suja que brota das suas fontes “bem informadas”.

A imprensa desportiva, bem como os programas televisivos que vivem à custa do futebol, têm características próprias que os distinguem de todos os outros, a começar na peculiar linguagem futeboleira que pede meças a qualquer acordo ortográfico, por muito mau que seja. De facto, quem estiver mais atento não deixará de reparar nalgumas pérolas jornalísticas que diariamente são atiradas para o papel e para o éter – na ânsia de mais vender, os jornais chegam a publicar manchetes iguais, ao mesmo tempo que nas televisões os experts, e os espertos, dão notícias contraditórias sobre os mesmos clubes, os mesmos jogadores, as mesmas transferências! Cada cor seu paladar, o leitor/telespectador que escolha, há para todos os gostos e feitios…

Hoje, as capas dos jornais desportivos são um bom exemplo do que jornalisticamente se produz naquelas redacções, cheias de estagiários mal pagos e pior formados e de chefes acomodados aos importantes lugares que ocupam, já demitidos da sua função de corrigir e ensinar quem dá os primeiros passos na profissão. Mas vamos aos títulos produzidos por aquelas mentes (pouco) brilhantes: o jornal “O Jogo” titula assim a vinda de Ricardo Quaresma para o Vitória de Guimarães: O MUSTANG CHEGOU AO BERÇO, como se o aciganado craque ainda fosse um garanhão da bola ou o veloz e potente bólide americano inspirado naquele famoso cavalo – nesta altura do campeonato Quaresma não passará de um Fiat 600 ou de um lento “papa reformas”, já vai sendo tempo de lhe mudarem a alcunha! O diário “Record” faz manchete com a hipotética venda de Vinicius, mas também anuncia que HOJE HÁ RONALDO, garantindo que o herói nacional vai alinhar frente à Suécia, mas não informa se também há caracóis e tremoços, finos e copos de três. “A Bola”, por sua vez, faz manchete com o deus da bola português e tenta vender um PORTUGAL MAIS FELIZ, por obra e graça da inclusão do madeirense no jogo de hoje – esta é uma gritante injustiça em relação aos jogadores que há dias golearam a Croácia e que não precisaram do menino querido da nossa comunicação social para afirmarem que a selecção portuguesa tem armas e bagagens suficientes para derrotar qualquer adversário, mesmo que Ronaldo não jogue, como o fez, aliás, durante a fase de apuramento da primeira edição desta mesma competição, limitando-se a realizar os dois jogos da fase final, depois de o “trabalho sujo” ter sido feito pelos restantes companheiros de selecção.

É esta a informação desportiva, leia-se futeboleira, que temos, toda ela virada para uma guerra de vendas e de audiências, uma guerra que certamente não produzirá vencedores – há muitos anos os jornalistas desportivos eram considerados jornalistas de segunda, eram olhados pelos seus pares com reservas, poucos lhes conferiam a importância que agora julgam ter e da qual desfrutam. Será que eles tinham razão?

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