MARCELO DIXIT

Por DANIEL SANTOS
Agosto 30 2020

As passeatas triunfais de Marcelo, habitualmente acompanhadas pelo povão que lhe segue os passos à espera de oportunidade para tirar uma selfie ao lado de Sua Excelência, foi, há dias, abruptamente interrompida por uma mulher que, de telemóvel na mão e dedo em riste, lhe disse das boas – o telemóvel não serviria para sacar a habitual foto para a posteridade, a ferramenta fora empunhada para gravar as palavras do atónito Presidente da República, avisado que está o povo da facilidade com que os políticos deturpam ou negam o que dizem e esquecem o que falam.

Marcelo, por uma vez que seja, mostrou-se incapaz de dar a volta ao texto com que a mulher lhe zurzia os ouvidos – como ousou tal criatura confrontá-lo com questões que nem os jornalistas se atrevem a colocar, que descaramento era aquele, frente às câmaras e microfones das televisões, que incomodava o mais alto magistrado da Nação, que palavras eram aquelas que metralhavam o surpreendido Presidente da República, indefeso porque não habituado a ser perguntado daquela maneira tão agressiva?

É claro que a atrevida e zangada mulher pouco ou nada percebia da organização política e administrativa da Nação, certamente não teria estudado aquela cadeira que, há mais de cinquenta anos, éramos obrigados a “encornar” nos antigos sexto e sétimo anos do Liceu. De facto, algumas das frenéticas perguntas da anónima – agora já famosa – cidadã não tinham razão de ser e mostravam bem que a senhora pouco ou nada sabia dos deveres e obrigações do PR e das suas limitações no espectro político português, evidenciando desconhecer os limites da interferência presidencial nas tomadas das decisões políticas – aquela mulher, como muitos portugueses, apenas via em Marcelo o salvador da Pátria que não é, o juiz do governo que não pode ser… Vai daí, encostado o Presidente às cordas, a mulher obrigou-o, a ele, Presidente, a dizer o que não queria, a gaguejar o que não devia!

“Diga aos portugueses para votarem noutro governo”, foi o melhor que Marcelo conseguiu balbuciar perante o frenesim da senhora feita repórter – e essa frase “histórica” depressa deu a volta ao País, dela muitos terão tirado conclusões precipitadas, outros terão sido mais realistas e limitaram-se a levar a coisa à letra. Marcelo dixit, não há como escondê-lo, Portugal inteiro aguarda, com justificada curiosidade, a instauração do costumado inquérito que é prática corrente deste governo e deste Presidente, pouco ou nada habituados a lidar com cidadãos que questionem os quês e os porquês das políticas ora vigentes, e que não agradam, como ficou demonstrado, a muito boa, ou má, gente.

“Averigue-se até às últimas consequências”, terá dito Marcelo!

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