ORGÃOS DA IMPRENSA EM TIMOR PREOCUPADOS COM ‘FAKE NEWS’

O presidente do Conselho de Imprensa timorense lamentou hoje que jornalistas nacionais continuem a publicar notícias relativas à situação da covid-19 sem confirmação ou verificação, considerando também “intolerável” que membros do Governo “privilegiem” alguns meios de comunicação.

“Lamento imenso esta realidade. O Conselho de Imprensa alertou várias vezes, aos jornalistas mesmo antes da declaração do estado de emergência, para tomarem atenção na produção de notícias”, disse à Lusa Virgílio da Silva Guterres.

“É essencial a contínua e necessária verificação de dados, a confirmação com fontes e clarificação de factos, antes de publicarem os seus pacotes noticiosos. Infelizmente, continua a haver a ausência destes aspectos”, sublinhou.

Nas últimas semanas tem havido várias situações com notícias deturpadas, erradas ou pouco clarificadas em vários órgãos de comunicação social, criando muitas vezes confusão na população, especialmente porque são difundidas pelas redes sociais.

Um problema que se deve a “preguiça” ou ignorância dos assuntos ou até mesmo pela “ansiedade em ser o primeiro a dar a notícia”, esquecendo-se de fazer a confirmação ou a optarem por “interpretações muito subjectivas” dos temas.

O problema não é novo, disse Virgílio da Silva Guterres, mas acaba por ser mais preocupante em alturas como a actual, de estado de emergência devido à covid-19 e onde é crucial dar informação correta.

“Os nossos colegas nem sempre fazem o esforço para fazer verificação com as fontes da informação. Aparecem sempre com notícias com fontes únicas sem fazer confirmação com várias fontes antes de publicar ou apresentar aos leitores”, explicou.

Como exemplo cita dois casos recentes sobre notícias que vieram a ser desmentidas relativas a uma reunião dos líderes da nova coligação de maioria parlamentar ou sobre a divulgação errada da suposta aprovação em Conselho de Ministros de medidas económicas para a pandemia que apenas foram discutidas.

“Ao usarem fontes anónimas, mas não credíveis, para o público acabam por ser boatos e não notícias e isso é muito preocupante para o Conselho de Imprensa. Por isso continuamos a comunicar com os jornalistas, e com os órgãos de comunicação social, especialmente aos chefes de redacção para terem atenção a esta matéria”; referiu.

Virgílio da Silva Guterres considera que parte do problema se deve à forma errada como as instituições do Estado comunicam informação ou interagem com os jornalistas.

Critica, por exemplo, a decisão da Presidência da República impedir que jornalistas façam transmissões em directo das conferências de imprensa dadas por intervenientes políticos, ou outros, depois de encontros com o chefe de Estado.

“Tem que haver espaço para que os jornalistas possam transmitir de forma mais frequente e o mais depressa possível a informação. Têm de garantir isso”, frisou.

O responsável do CI critica a falta de “protocolos de comunicação” e a comunicação mais clara, tanto a nível de temas relacionados com a covid-19 como noutros assuntos.

Daí que defenda, por exemplo, que sejam distribuídos mais comunicados de imprensa em vez da comunicação se ficar por declarações aos jornalistas, muitas vezes só com informação parcial ou pouco clara.

E é “especialmente lamentável” o facto de alguns ministros “privilegiarem” uns órgãos de comunicação social, mesmo que sejam os públicos, dando como exemplo notícias do Ministério das Obras Públicas que são dadas apenas à agência oficial, Tatoli, ou a outras comunicadas apenas às televisões.

“Já avisámos os oficiais públicos para tratarem justamente e não discriminarem os meios de comunicação. Qualquer conferência de imprensa ou actividade tem que ser coberta por toda a comunicação social, que tem que ser avisada com antecedência razoável”, explicou.

“É intolerável continuar esta comunicação que discrimina uns órgãos de informação. Especialmente agora porque estamos todos a combater este inimigo invisível”, sustentou.

Timor-Leste tem até agora um caso confirmado de covid-19 e está em estado de emergência desde 28 de Março.

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