FINALMENTE!

Andava o País acabrunhado – diria, mesmo, triste e inconsolável – e ninguém sabia ou desconfiava dos porquês deste estado de espírito. Diziam uns, principalmente indígenas de Braga, Porto e Lisboa, que tal se devia à eliminação do Braga, do Porto, do Benfica e do Sporting da Liga Europa. Porém, tal frustração também se fazia sentir em Chaves, Bragança, Coimbra, Viseu, Leiria, Setúbal, Évora, Portimão e Faro – por que raio andariam, então, todos os portugueses tão infelizes, resmungões, olhos postos no chão, esgares de um sorriso amarelo postado nas beiças? Que teria acontecido neste abençoado e querido País para que o seu povo se sentisse pior do que nos anos em que os Felipes por aqui andaram, transformando este belo Portugal na coutada privada aonde se deslocavam para informais passeatas ou animadas batidas aos javalis – e a algum português com que se cruzassem?

Durante dias, demasiados dias, fomos invadidos por cientistas, pneumologistas, biologistas, técnicos de saúde, enfermeiros, comentadores de vírus e de futebol, senhoras da limpeza, doentes e saudáveis, porteiros e seguranças de hospitais, polícias e bombeiros, futebolistas, Marques Mendes e Jorge Coelho, Constança Cunha e Sá e Clara Ferreira Alves, Octávio Machado e Rui Santos… eu sei lá quantos foram, nessas alturas até botaram palavra a ministra Temida pelos estragos que está a fazer no Serviço Nacional de Saúde, o nosso primeiro que decretou Portugal como um país seguro – tirando, naturalmente, a porrada com que diariamente são sovados médicos, professores e polícias – e até o Presidente da República, essa reservada criatura que só fala quando abre a boca e desde que o assunto não esteja em segredo de justiça veio descansar os portugueses, valentes descendentes de Sertório e Viriato que não temem quaisquer vírus, chamem-se eles Corona, Covid-19 ou Rui Rio.

E eis que, no dia de graça de 2 de Março de 2020, Portugal foi finalmente recompensado! Finalmente, gritaram, a uma só voz, os quase 11 milhões de portugueses, até então mais do que convencidos do azar de que não nos tocaria um só coronavírus, um que fosse para mostrar as essa Europa e a esse Mundo inteiro que nós, heróicos lusitanos que aguentámos escorbutos, malárias, moscas do sono, tuberculoses, febres amarelas e outras maleitas, não teríamos caparro para derrotar esse bicharoco made in China, que, como tudo o que de lá vem, não deve durar mais do que três mesitos, senão menos…

Finalmente, ulularam  as cadeias de televisão, cada qual com 10 repórteres e 5 cameramen às portas dos hospitais, mais meia dúzia de ‘especialistas’ em estúdio, todos eles suficientemente abalizados para nos reportarem as peripécias do Corona, essa coisa feia que os noticiários nos estão constantemente a mostrar, como se nós, a olho nu, o pudéssemos evitar no espirro do vizinho do lado ou no apaixonado ósculo da nossa mulher ou namorada.

Já temos dois casos registados, venham de lá esses ossos, afinal já não estamos no cu do Mundo, atrás de nós ainda vêm a Noruega, a Suíça, a Islândia, a Dinamarca, a Turquia, o Luxemburgo, a Grécia… tudo pobres países que não merecem a atenção do Corona – enquanto nós por cá, felizes, contentes e danados para a brincadeira, até já arranjámos uma música, bem conhecida, por sinal… apenas com uma ligeiríssima alteração:

Meninas, vamos ao vírus

Ai, que o vírus é coisa boa!

Eu já vi dançar o vírus

Ai, às meninas de Lisboa!

Ó vírus, que vírus, e torna a virular.

As voltas do vírus são boas de dar.

 

Boa saúde para todos. 

DANIEL SANTOS

Comments

be the first to comment on this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP
Translate »