RACISMO E HIPOCRISIA

Marega é negro, todos o sabemos. E não é nenhum Adónis, todos o reconhecemos. E talvez até descenda, como eu, e como todos nós, dos macacos – são renomados biólogos e naturalistas que o afirmam, é óbvio que não vou entrar por esse campo científico de que pouco ou nada conheço…

Vem este intróito a propósito da celeuma há dias levantada por hipotéticas ofensas ao avançado do FC Porto, no recente jogo que os azuis-e-brancos venceram frente ao Guimarães. Depois de marcar o segundo golo da sua equipa, Marega – que já foi jogador do Vitória Sport Club – ter-se-á dirigido à claque dos vimaranenses com gestos que estes entenderam provocatórios, tendo sido apupado e mimoseado com expressões pouco ou nada académicas, afinal a linguagem que se pratica no nosso futebol, cada vez mais uma guerra do que um desporto… Vai daí, o avançado portista resolveu abandonar o terreno de jogo – quem não se sente não é filho de boa gente, e o franco-malinês, perante tanta agressão verbal, entendeu ir tomar banho mais cedo, de nada valendo os insistentes pedidos de colegas e adversários para que continuasse em campo.

E pronto. Foi isto o que aconteceu no Estádio D. Afonso Henriques, como já terá acontecido em inúmeros estádios por esse mundo fora – Balotelli já terá ouvido os mesmos “piropos”, Marcelo também, Eusébio e Pelé idem, Mané, Aboubakar, Doumbia e centenas de jogadores negros que representam os mais diversos clubes do mundo por certo já sentiram na pele, e nos ouvidos, os insultos racistas que provêm das bancadas. Mas não se pense, como alguns querem fazer crer, que tais impropérios só são emitidos por brancos e contra os negros – há muitos anos, quando eu jogava futebol pelo Sporting de Luanda, também ouvi das boas, também fui enxovalhado por espectadores negros que pensavam que eu era branco (sou mestiço, neto de avó negra, filho de mãe mulata e pai branco)! Tive de me aguentar à bronca, eu estava ali para praticar futebol e não para entrar em discussões étnicas e rácicas… e os nomes que me chamaram, depois de um banho quente e bem ensaboado, depressa foram lavados do meu corpo e da minha mente.

O que me choca, neste ‘caso Marega’, são os aproveitamentos hipócritas de toda esta gente sem escrúpulos que se agarra a este episódio – condenável, é certo – para fazerem valer os seus altruísmos bacocos, a sua postura civilizada, o seu duvidoso repúdio a uma infeliz ocorrência que não representa, de modo algum, o sentir de todos os Portugueses, povo multirracial e multicultural de que eu próprio sou exemplo vivo, passados 72 anos de uma vivência civilizada com brancos, pretos, amarelos, azuis, às riscas ou às bolas!

Deixemo-nos, pois, de procurar fantasmas onde eles não existem, deixemo-nos de tempestades em copos de água – e a senhora Joacine e o senhor Mamadou passarão a ter cada vez menos argumentos para incendiarem as campanhas racistas – essas, sim! – com que constantemente vêm denegrindo o País que os acolheu!

NOTA À MARGEM. Até o Presidente da República falou sobre o assunto, com a disponibilidade e o à vontade que não lhe vimos a dissertar sobre os médicos que são agredidos nos hospitais, sobre os professores que são espancados nas escolas ou sobre os polícias que são sovados nos chamados bairros sociais… onde a Polícia nem sequer entra!

DANIEL SANTOS

 

LEGENDA

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, fala aos jornalistas sobre o caso Marega, vítima de insultos racistas durante o jogo da Primeira Liga de Futebol de ontem contra o Vitória de Guimarães, Lisboa, 17 de fevereiro de 2020.

MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

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