Puxa-saco: a outra profissão mais antiga do mundo

Não há momento histórico nem círculo de poder sem sua proximidade. Os bajuladores, mais conhecidos como puxa-sacos, estão em toda parte: na política, no jornalismo, no esporte e, possivelmente, também no lugar onde você trabalha. Nesse texto, tento entender um pouco mais sobre o funcionamento desses indivíduos de carreiras longas e, às vezes, bem sucedidas.

Breve história do puxa-saquismo

Se a prostituição é a mais antiga das profissões, o puxa-saco talvez tenha nascido junto com a primeira cortesã que se destacou na carreira. Quem sabe um dia a ciência prove que há um milhão de anos, quando o hominídeo aprendeu a controlar o fogo, ao seu lado já havia alguém elogiando o brilho de seus pelos para poder desfrutar do calor sem se esforçar muito.

A língua mostra que o puxa-saco, assim como a prostituta, possui uma lista farta de sinônimos: escova-botas, capacho, chupa-caldo, zumbaieiro, bajoujo, banhista, lambe-esporas, pelego, sorrabador, sabujo, bajulador. Em cada região há uma variação para definir o puxa-saco, assim como tudo que é fácil de se encontrar na natureza.

A bajulação é um fenômeno humano que sobrevive à evolução da espécie e às transformações políticas e tecnológicas. Nem as novas profissões estão livres dela.

Recentemente, o YouTuber Whindersson Nunes desabafou sobre sua depressão. Chamo atenção para um ponto específico do seu texto que dizia: “Eu estou rodeado de abutres, urubus, cada um querendo a sua fatia do bolo, e ver tantas pessoas ruins me deixa deslocado”. Poderia apostar que entre os “abutres” está uma legião de puxa-sacos, todos esperando pelo retorno de investimento de seus favores interessados.  

O puxa-saco segundo Shakespeare

Há diferentes tipos de puxa-saco, a maioria inofensiva.

Atualmente eles podem ser encontrados aos montes nas redes sociais. Soltando afagos públicos para seus influenciadores preferidos (mesmo se eles cometem deslizes ou postam comentários absurdos), mandando aquele carinhoso elogio para o chefe que postou foto do happy hour (para o qual ele não foi convidado) ou mesmo remando de acordo com a tendência da vez para agradar a quem ele busca proximidade. Os puxa-sacos são o centrão da sociedade.

Mas há também puxa-sacos sórdidos. Aqueles que bolam planos, calculam seus movimentos e tem a paciência para dar o bote na hora certa.

Há algumas semanas fiz um coaching com William Shakespeare sobre a arte do puxa-saco. A aula está na leitura de um clássico de 1605: Rei Lear.

A peça conta a decadência de Lear, rei da Bretanha. No fim da vida, com o discernimento comprometido, ele divide o reino entre suas três filhas, mas nega uma porção para a mais nova, Cordélia, justamente aquela que tinha amor sincero por ele, embora não fosse esperta como suas outras irmãs para massagear o ego do rei com as palavras.

Em outro núcleo da história, outro puxa-saco. O submisso Edmundo cresce seu poder na medida em que finge lealdade para todos que o cercam. Enquanto isso, trai um por um até chegar onde deseja. No fim, como manda o manual da tragédia, puxa-sacos e suas vítimas enfileiram as contas dos mortos.

Em Shakespeare há sempre muitas lições. Nesse caso, a primeira é que puxa-sacos são capazes de boas ações (ou ao menos de atitudes que parecem boas). Por isso confundem e embaralham sentimentos de tanta gente. Não se engane: suas atitudes benevolentes não são de amizade, nem altruísmo, mas de oportunismo. O pacote de bondades de um puxa-saco é dado com uma mão enquanto a outra está aberta esperando a recompensa.

Puxa-sacos são capazes de boas ações (ou ao menos de atitudes que parecem boas). Por isso confundem e embaralham sentimentos de tanta gente.

Outro aprendizado da tragédia serve para os próprios puxa-sacos. Eles são descartáveis. Um dia acabam superados por uma versão atualizada, mais esperta e eficiente de bajuladores 2.0 ou, com o perdão do trocadilho, não conseguem manter seu teatrinho em pé por todo o tempo. Um dia a máscara cai.

O puxa-saquismo é complexo

Sob uma visão pragmática, a bajulação faz mal para ambas as partes, tanto para aquele que adula quanto para quem é o alvo da adulação.

Ser puxa-saco é morar ao lado da covardia e pode não ser uma boa estratégia em longo prazo porque, em geral, eles passam mais tempo tentando agradar do que aprendendo a fazer alguma coisa útil. Na outra ponta, quem se cerca de bajuladores tende a perder oportunidades de aprender com as críticas. Acaba enganado pelo canto da sereia de um elogio sedutor e em última instância pode terminar como o Rei Lear: vítima de traição.

Quem se cerca de bajuladores tende a perder oportunidades de aprender com as críticas

Como típico fenômeno humano, o puxa-saquismo é complexo e envolve emoções. Se fizéssemos uma pesquisa em todos os escritórios do mundo com a pergunta “você é a favor ou contra os puxa-sacos?”, é provável que houvesse avassaladora maioria sobre a visão negativa do puxa-saco profissional. Na prática, até puxa-sacos são contra puxa-sacos (talvez para evitar a concorrência ou porque não se considerem como tal). Mas também é possível que houvesse um número alto quanto à presença de pelo menos um puxa-saco em cada escritório do planeta.  

Só não dá para dizer que o puxa-saco não tem visão de investimento porque ele mira um dos ativos mais importantes do ser humano: a confiança. Inclusive, é aí que geralmente entra aquela boa ação. O puxa-saco pode fazer alguma coisa para ganhar a confiança do seu alvo e é difícil acreditar que aquela pessoa que parece gostar tanto de você vá lhe fazer mal. O problema é o “parece”. Confiável é sua mãe que diz aquela coisas que você não queria ouvir. Já o bajulador, que está em busca de uma vantagem pessoal, costuma ser eficaz na arte de fingir preocupação.

Confiável é sua mãe que diz aquela coisas que você não queria ouvir. Já o bajulador, que está em busca de uma vantagem pessoal, costuma ser eficaz na arte de fingir preocupação

Há quem goste

Sim, mas há quem goste de puxa-sacos. No fundo, ele é como um parasita que se aproveita de uma oportunidade que a natureza lhe dá ou, para ser mais direto, de um sentimento demasiado humano e que não tem previsão para deixar de existir: a vaidade. É nela que está o terreno fértil onde germinam os puxa-sacos. É óbvio, mas não custa ressaltar. Reis, imperadores e CEOs que gostam de cultuar a própria imagem e personalidade têm mais chances de atrair bajuladores.  

Reis, imperadores e CEOs que gostam de cultuar a própria imagem e personalidade têm mais chances de atrair bajuladores.  

Muitos poderosos se cercam de aduladores porque se sentem envaidecidos com eles. É uma câmara de eco que sempre traz a aprovação desejada, mesmo que ilusória. E se a vaidade é terra boa para cultivar puxa-sacos, autoritarismo é o adubo.

Líderes que comandam pela tirania, assim como Rei Lear, têm grandes chances de ouvir falsos elogios para não serem contrariados. Com medo de perder o emprego, ser punido, levar uma bronca ou pela chance de escalar a montanha das oportunidades, dificilmente alguém dirá uma verdade inconveniente para esse tipo de chefe, na maioria das vezes inseguro e em busca de aprovação a todo momento. Não é raro um líder autoritário que se cerca de puxa-sacos acabar sozinho quando a primeira crise aparecer.  

Portanto, entre a necessidade de confiança, a vaidade e o medo forma-se o tripé onde se sustentam os sugadores do sucesso alheio.

Só o tempo dirá se a inteligência artificial será capaz de reduzir a quantidade de puxa-sacos no mercado. Acho difícil. Talvez alguns robôs sejam especialmente produzidos para bajular seres humanos solitários e carentes enquanto outros robôs espionem e garantam que a verdade chegue sem melindres para líderes cercados de bajuladores.  

Enquanto isso, a velha canção segue atual: o cordão dos puxa-sacos cada vez aumenta mais.  

Em tempo: dizem que o termo puxa-saco tem origem militar. Oficiais levavam suas roupas em sacos, mas não carregavam os próprios sacos de roupas. Quem levava eram os subalternos, assim chamados de puxa-sacos

por Rodrigo Focaccio

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