BREXIT: a situação nua e crua

Depois de, na passada quinta-feira, ter declarado à ITV que um ‘no deal’ do Brexit (saída da UE sem acordo) “seria um erro que lamentaríamos por gerações”, Jeremy Hunt, o actual ministro dos negócios estrangeiros britânico, explicou, via Twitter, que os seus comentários sobre um Brexit sem acordo, “não deveriam ser mal interpretados”, porque acreditava que a Grã-Bretanha “sobreviveria e prosperaria” caso acontecesse – mas seria um “grande erro para a Europa”.

A seu ver, o Reino Unido só “assinaria um acordo que respeitasse o resultado do referendo”. No entanto, reputáveis economistas e homens de negócios no país avisam que, antes da recuperação, o Reino Unido passaria por um período de grandes privações e de ‘caos’ financeiro. E o que ouvimos dos elementos do governo britânico é precisamente o contrário.

Ontem na ITV, o porta voz dos euro-cépticos conservadores dizia que o país continua em crescimento, que a economia continua sólida e que todas as previsões teriam falhado. Só que o que os economistas e especialistas da área financeira referem-se aos cenários após a saída da União Europeia. O crescimento da Grã-Bretanha de momento é positivo porque continua como membro pleno do bloco e usufrui desse benefício. No entanto, o crescimento económico britânico já apresenta índices abaixo da UE. Para não falar do valor da libra e do exponencial aumento do custo de vida…

Nigel Evans, conservador e defensor de um Brexit sem acordo, diz que o país “não precisa de lições dos ‘Remainers’ (que defendem a permanência na UE)”.

Sobre as declarações de Hunt à televisão, este deputado explica que “ele tem seus próprios pontos de vista. Votou na manutenção. A primeira-ministra precisa de garantir, como prometeu, que os eurocépticos no governo sejam os responsáveis ​​pela política em deixar a União Européia”.

Por outro lado, Conor Burns, outro conservador anti-europeu, tem um ponto de vista diferente e diz que “o que queremos evitar para as ‘gerações vindouras’ está a ser negociado com a UE, em vez de se manter um acordo e perder a decisão em redor da mesa”.

Perante esta posição extremada dos euro-cépticos do partido do governo, foram reiniciadas as negociações e manifestada a possibilidade de o Reino Unido sair da União Europeia sem um acordo em Março de 2019.

A Primeira-ministra, perdida entre os eurocépticos e os ‘europeus’ do partido e, assim, sem uma maioria parlamentar para passar uma resolução de acordo, tem feito um grande esforço em conversações multilaterais com os chefes dos 27 governos do bloco europeu, mas não se vislumbra uma solução que agrade a gregos e troianos.

Na sexta-feira, o ministro das Finanças da Dinamarca, Kristian Jensen, disse ao programa Today, da BBC Radio 4, que o plano Brexit de Theresa May, elaborado no Checkers, era uma “proposta realista de boas negociações”. Só que esta solução não agrada aos euro-cépticos…

Entretanto o tempo esgota-se e a maioria dos responsáveis pela UE e pelo Reino Unido, perante os factos, acreditam que a possibilidade de um ‘no deal’ (ruptura total das negociações) é de 50/50 e se não houver tomadas de posição de ambas as partes é muito natural que aconteça. A acontecer, tudo o que foi negociado até agora, deixa de ter obrigação legal, deixa de haver período de transição e a nossa (imigrantes europeus) situação passa exclusivamente para as mãos do governo britânico.

Aliás, se analisarmos o Site do governo (Home Office) sobre o assunto, deixou de se falar sobre as normas legislativas do ‘settle status’ (permanência definitiva) para os cidadãos europeus estarem prontos a partir de Outubro deste ano e fala-se agora estar tudo em posição antes de 29 de Março de 2019.

Apesar de muito pressionado e obrigado a uma rectificação, Jeremy Hunt, ministro dos negócios estrangeiros britânico, continua a aceitar que o plano do Chequers do governo é o “quadro no qual acredita que o acordo final será baseado”.

A seu ver, o Reino Unido deve estar “preparado para todos os resultados”, mas se sair sem um acordo negociado: “Seria um erro que lamentaríamos por gerações, a haver uma ruptura e se tivéssemos um divórcio confuso e feio… inevitavelmente isso mudaria as atitudes britânicas em relação à Europa”.

O secretário de estado da economia, Greg Clarke, que se encontrou com colegas na Áustria e Finlândia, diz estar “confiante” de que um “acordo mutuamente benéfico” será alcançado.

Mas avisa que, se a Comissão Europeia não “responder positiva e construtivamente” à proposta do Reino Unido, “a ruptura e o impacto – dessa decisão – nos negócios, economias e milhões de famílias de trabalhadores em todo o Reino Unido e na UE serão significativos e duradouros”.

O governo tem divulgado os seus planos para o Brexit, acordado em Julho em Chequers – a residência do primeiro-ministro em Buckinghamshire – e que foi apresentado à UE e seus líderes no principio do verão.

Só que o negociador-chefe da União Europeia, Michel Barnier, parece ter descartado uma das proposta-chave do acordo apresentado pelo Reino Unido – que permitiria a Londres cobrar taxas aduaneiras em nome da UE. O que criava um vazio e algum desconforto na proposta britânica.

Enquanto isso, foi publicada uma informação na imprensa, que apresentava uma lista de 84 áreas da British Life – desde a produção de alimentos orgânicos até viagens com animais de estimação – que seriam fortemente afectadas, caso o Reino Unido deixasse a UE sem um acordo.

Espera-se que o governo publique, nas próximas semanas, uma série de documentos técnicos sobre as consequências de sair sem acordo.

O ex-ministro do Brexit, David Davies, disse ao programa da BBC ‘World at One’, que foi uma “grande vergonha” não terem sido publicados anteriormente, já que “as pessoas precisam de perceber que deixar a União Europeia sem um acordo negociado não será necessariamente o fim do mundo, de facto, longe disso.” Opinião seriamente contrariada pelos mais salientes economistas, empresários, instituições patronais e de trabalhadores e estudos já revelados no Reino Unido.

As conversações sobre o Brexit foram retomadas em Bruxelas esta semana focando a solução da fronteira irlandesa – um ponto crucial – para as futuras relações.

Sobre a mesma, um porta-voz da Comissão Europeia afirmou: “Como os encontros desta semana foram a nível técnico, não haverá uma reunião entre Michel Barnier e Dominic Raab. Confirmaremos, atempadamente, quando uma reunião subsequente for organizada.”

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