PATÉTICO

 

Por Daniel Santos

Do lado de fora da jaula, sem o risco iminente de ser apanhado pelas unhas dos gatinhos ou pelas garras de certos leões que só agora entenderam sair da toca, tenho, como cidadão interessado e apaixonado pelo futebol, a minha opinião sobre o que é, e vai continuar a ser, a cognominada “crise do Sporting” – não sei se “do Sporting” ou apenas “no Sporting”, o tempo se encarregará de nos elucidar quanto à preposição a empregar.

Não creio que seja crime de lesa pátria o presidente de um clube, e de uma SAD, criticar o comportamento de alguns atletas do plantel. Pagos a peso de ouro, os jogadores de futebol são “trabalhadores” muito especiais, distantes, por via dos avultados honorários e do tratamento mediático que lhes é concedido, dos vulgaríssimos empregados/funcionários que todos conhecemos noutras profissões. Convém lembrar, porém, que todos os dias, na rádio, na imprensa e nas televisões, esses profissionais são alvo de críticas ou de elogios que muitas vezes chegam a ultrapassar a normal análise do seu comportamento dentro do jogo, com jornalistas e comentadores a ultrapassarem o seu próprio campo de acção, imiscuindo-se na vida pessoal dos craques – é o preço da “fama”, notoriedade efémera de que muitos jogadores de futebol não abdicam, antes alimentam…

Escrito isto, admito a crítica que Bruno de Carvalho teceu a alguns dos seus atletas. Embora não concorde com ela (o Sporting não terá jogado assim tão mal) não se pode ficar indiferente à forma infantil e despropositada como Coentrão e Bas Dost viram o cartão amarelo que os colocou fora do segundo jogo frente ao Atlético de Madrid – neste caso o presidente do Sporting entendeu vir a público criticar o defesa e o avançado, depois de ter deixado passar em claro o comportamento inapropriado de Gélson, também ele impedido de participar em jogo importante após desnecessário exibicionismo que eventualmente terá prejudicado a equipa, o clube… e a SAD. Terá sido este, porventura, o primeiro grande erro de Bruno de Carvalho naquele fatídico post que originou toda esta celeuma, esta dualidade de critérios e comportamentos terá suscitado algum desconforto no seio do grupo, apanhado de surpresa após um jogo em que o azar, e algum nervosismo, lhes bateram à porta.

O segundo erro foi a própria publicação de tal texto. O direito à crítica não confere ao presidente do Sporting a imunidade de também ser criticado – e foi isso que aconteceu, os futebolistas responderam-lhe pela mesma via por que tinham sido atacados. “Com ferro matas, com ferro morres”, e “quem não se sente, não é filho de boa gente” foram os ditados que os jogadores entenderam seguir à risca para responder ao irascível Bruno, mais uma vez apanhado nas malhas do seu próprio narcisismo e egocentrismo.

O terceiro erro de Bruno terá sido a resposta à resposta. Em vez de perceber que não é através das redes sociais que se sanam divergências, em vez de guardar para o balneário a expressão do seu descontentamento, Bruno entendeu prosseguir, e alimentar, a guerra que iniciara. Mais, provocou uma patética conferência de imprensa onde voltou a destilar mais veneno para cima de tudo e de todos, em vinte minutos surreais o presidente do Sporting limitou-se a confirmar a razão que não lhe assiste e o ódio que nutre por quem não lhe acompanha os despautérios e desvarios.

Finalmente, o regresso ao Facebook  para voltar a atacar, desta vez pessoalizando, mais do que nunca, o alvo da sua ira. Entre o nascimento da filha e umas baforadas no cigarro, Bruno de Carvalho terá arranjado tempo suficiente para teclar, na sua rede social de eleição, aquele que poderá ter sido o seu testamento – deixará muitas coisas boas feitas em prol do clube, mas deixará também o exemplo, triste e irrepetível, de como o presidente de uma instituição respeitável como o Sporting não se deve comportar…

PS – O Sporting terminou a sua carreira na Liga Europa, depois de uma grande exibição em Alvalade. A eliminatória foi efectivamente perdida em Madrid, naquela primeira mão azarada. Mas isto é futebol, os erros pagam-se caros, é certo, mas jamais deverão servir de arma de arremesso para satisfação de egos mesquinhos e demonstrações de atitudes ditatoriais – ainda por cima protagonizadas por presidentes de clubes!

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